domingo, 18 de fevereiro de 2018

Aula 08 – UMA ALIANÇA SUPERIOR


1º Trimestre/2018

Texto Base: Hebreus 8:1-10

"Porque este é o concerto que, depois daqueles dias, farei com a casa de Israel, diz o Senhor: porei as minhas leis no seu entendimento e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por Deus, e eles me serão por povo" (Hb.8:10).

INTRODUÇÃO

Dando continuidade ao estudo da Epístola aos Hebreus, estudaremos nesta Aula o capítulo 8. Trataremos a respeito da natureza, dos aspectos e da promessa da Nova Aliança, que é infinitamente superior à Antiga. A Epístola aos Hebreus revela que Cristo é o “Mediador de superior Aliança instituída com base em superiores promessas” (Hb.8:6). Ela é mais excelente porque as promessas do pacto mosaico eram condicionais, terrenas, carnais e efêmeras, enquanto as promessas da Nova Aliança são incondicionais, espirituais e eternas. Inúmeros são os benefícios que a Nova Aliança oferece a todos aqueles que creem no sacrifício de Jesus e buscam se achegar a Deus. Todos os benefícios da Nova Aliança só se tornaram possíveis mediante a obra expiatória de Jesus Cristo, pois na Antiga Aliança somente o sumo sacerdote podia entrar no Santo dos Santos uma vez no ano no dia da Expiação. Hoje, por meio do sacrifício perfeito e eterno de Cristo, temos livre acesso à presença de Deus. Ter livre acesso à presença do Pai, sem dúvida, é o maior benefício que nos foi concedido pelo Senhor. Como crentes jamais devemos negligenciar a Nova Aliança menosprezando a maravilhosa graça de Deus.

I. UM SANTUÁRIO SUPERIOR

“A Nova Aliança é dotada de uma dimensão superior, de uma natureza superior e de uma importância superior à Antiga”.

1. Pertencente a uma dimensão superior. “Ora, a suma do que temos dito é que temos um sumo sacerdote tal, que está assentado nos céus à destra do trono da Majestade” (Hb.8:1). Jesus, o nosso Sumo Sacerdote, está assentado não no tabernáculo de Moisés, que é efêmero, feito por mãos humana, mas no lugar de maior honra: “nos Céus à destra do trono da Majestade”. Esse é o tabernáculo verdadeiro, do qual o tabernáculo terreno era uma simples figura ou representação. O verdadeiro tabernáculo foi erigido pelo Senhor e não pelo homem. No texto, “céus” refere-se ao santuário celestial (Hb.8:2), a morada de Deus. Foi nesse santuário celestial que Cristo entrou para oficiar, como Sumo Sacerdote, em nosso favor, e é o último e eterno destino de todos aqueles que creem (cf. Hb.4:1; 6:19,20; 11:10; 12:22). Você crê nisso?

2. Possuidor de uma natureza superior. O santuário terreno era por natureza temporal, figura do verdadeiro santuário, que é espiritual e eterno. Diz o texto sagrado:ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem” (Hb.8:2). Este “verdadeiro tabernáculo”, ou lugar de adoração, não significa que o Tabernáculo e o Templo na terra eram falsos, mas que eram sombras imperfeitas do verdadeiro e perfeito lugar de adoração (Hb.8:5). Antes da vinda de Cristo, o sumo sacerdote só podia entrar em um lugar especial, o Santo dos Santos, para estar na presença de Deus. Hoje, através da oração, nós podemos entrar na sala do trono, no Céu, e um dia nós viveremos eternamente na presença do Senhor. Os caminhos “antigos” do sacerdócio judeu não mais existem, eles foram substituídos por Jesus, que é o Caminho, a Verdade, e a Vida (João 14:6).

3. Possuidor de uma importância superior. Sabe por que a Nova Aliança nos proporciona um santuário de uma importância superior? Porque o Cristo exaltado é o Sumo Sacerdote desse santuário. Ele serve assumindo o seu lugar de direito como nosso Salvador e Mediador. A Epístola aos Hebreus não tenta descrever o Céu, mas nos mostra como Cristo serve de uma maneira melhor e mais pessoal do que qualquer outro sacerdote poderia fazê-lo. Nesse Santuário celeste, habita a plenitude da divindade.

Na Antiga Aliança, a ideia central do tabernáculo era que Deus habitava entre seu povo; mas, Deus exigia um povo santo para que sua presença fosse manifesta (Lv.19:2). Sua plena realização encontra-se na encarnação de Cristo: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós" (literalmente, fez tabernáculo entre nós, João 1:14). Daí que se chama Emanuel - "Deus conosco" (Mt.1:23). Na Nova Aliança, o nosso corpo é o Tabernáculo/Templo do Espírito Santo, que habita em nós (1Co.6:19). A presença de Deus se manifesta na igreja por meio do Espírito Santo que habita nos crentes (Ef.2:21,22). Para o Espirito Santo habitar na vida dos crentes, Ele exige santidade, pois “sem santificação ninguém verá o Senhor” (Hb.12:14). Pedro enfatiza esta exortação: “mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (1Pd.1:15,16).

II. UM MINISTÉRIO SUPERIOR

“A Nova Aliança inaugurada por Cristo é superior à Antiga no aspecto posicional, funcional e cultual”.

1. No aspecto posicional. Diz o texto sagrado: “ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem” (Hb.8:2). O Cristo exaltado é o ministro do santuário no Céu. Seu ministério é apresentado como superior ao de Arão porque é oficiado em um santuário superior e melhor (Hb.8:1-5) e em conexão com uma Aliança melhor (Hb.8:7-13). Nesse santuário, Jesus serve assumindo o seu lugar de direito como nosso Salvador e Mediador. Cristo retornou à presença de Deus no Céu, “verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem” (Hb.8:2). O seu lugar no Céu garante o nosso lugar ali também. Deus nos permite entrar na mesma sala do trono e levar a Ele a nossa adoração e os nossos pedidos.

2. No aspecto funcional. Diz o texto sagrado: “Porque todo sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; pelo que era necessário que este também tivesse alguma coisa que oferecer” (Hb.8:3). Segundo este texto, o trabalho do sumo sacerdote era “oferecer dons e sacrifícios”. “Dons”, aqui, é um termo geral que cobre todos os tipos de ofertas apresentadas a Deus; eram sacrifícios quando um animal era imolado. Os sacerdotes eram nomeados para oferecer ofertas e sacrifícios muitas vezes, e o sumo sacerdote para oferecer, uma vez no ano, sacrifício para a expiação dos pecados (Hb.8.3). Cristo como nosso Sumo Sacerdote deveria ter “alguma coisa que oferecer”; Ele mesmo se deu em sacrifício a Deus em nosso lugar (1Co.5:7; Hb.7:27) – o Dom perfeito, que nunca poderá ser superado, e ao contrário do sacrifício levítico, não mais se repetirá - “porque isso fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo”(Hb.7:27) -, foi efetuado de uma vez por todas. O sacrifício de Cristo é completamente suficiente, isto é, todos os pecados estão abrangidos na sua oferta definitiva a Deus. Portanto, o seu papel como Sumo Sacerdote, o seu sacrifício e o seu serviço a Deus, superam o plano que havia sob a Antiga Aliança.

3. No aspecto cultual. Argumenta o autor da Epístola: “Ora, se ele estivesse na terra, nem tampouco sacerdote seria, havendo ainda sacerdotes que oferecem dons segundo a lei, os quais servem de exemplar e sombra das coisas celestiais...” (Hb.8:4,5). Nota-se aqui que, nos dias que foi escrita a Epístola aos Hebreus, ainda era praticado o culto levítico, isto é, os sacerdotes ofereciam sacrifícios e ofertas de acordo com a lei mosaica. Na Antiga Aliança, sacrificar equivalia a prestar culto a Deus, atribuir-lhe glória por ser Deus de quem dependemos e a quem devemos culto e submissão. Com o transcorrer do tempo, os israelitas chegaram a atuar como se o que importasse para Deus fossem os próprios sacrifícios em lugar do coração do ofertante. O salmista Davi e os profetas procuraram inculcar no povo a verdade de que Deus não se contenta com as vítimas oferecidas quando faltam o arrependimento, a fé, a justiça e a piedade naqueles que as oferecem (cf. 1Sm.15:22; Sl.51:16,17; Is.1:11-17; Mq.6:6-8).

Conforme Hb.8:4, todas as atividades e funções exercidas pelos sacerdotes estavam em pleno vigor na época em que foi escrita a Epístola, e se relacionavam estritamente ao culto. Todavia, neste aspecto, o sacerdócio de Cristo era superior porque sua atividade cultual era em tudo superior, visto se realizar no santuário celestial.

É válido ressaltar que o culto é assunto muito sério; ele é a parte mais importante daquilo que fazemos para Deus como Igreja. Infelizmente, muitos hoje não têm olhado para o culto com essa perspectiva e seriedade, o que só tem feito a igreja perder. Era exatamente essa perspectiva errada em relação ao culto que muitas vezes aconteceu sob a égide da Antiga Aliança, como se observa à época de Jeremias e Malaquias; foi por isso que, à época de Malaquias, Deus se queixou de que os sacerdotes estavam profanando e desprezando o culto (cf. Ml.1:7-10). O Deus de Malaquias é o mesmo de ontem e de hoje. Ele continua não aceitando um culto que não esteja de acordo com o que Ele estabeleceu, que não esteja de acordo com a vontade dele, um culto em que o coração não esteja presente; Deus continua não aceitando esse tipo de culto.

Diante disso, gostaria que pensasse em sua atitude quando cultua. Gostaria que pensasse em sua vida como um todo, pois o culto é a expressão externa do que a Igreja é, mas também é expressão do nosso compromisso interno para com o Senhor.

Quando desprezamos o culto divino recebemos o completo repúdio de Deus; Ele rejeita o ofertante e a oferta (Ml.1:10,13). Deus rejeita o ofertante e sua oração (Ml.1:9). Quando nossa vida está errada com Deus, não temos sucesso na oração. Em vez de Deus ter prazer nesse culto, Ele diz que isso é um mal (Ml.1:8). Em vez de Deus receber esse culto, Ele diz que ele é inútil (Ml.1:10).

Cultuar a Deus é a expressão máxima de nossa devoção ao Senhor, de nossa dependência à sua Palavra e de nossa necessidade de prestar-lhe serviço. O culto cristão é uma resposta ao imenso amor de Deus por nós, mediante expressões de louvor e adoração. O culto é a mais expressiva manifestação humana de aproximação com Deus. O culto é a comunhão do homem com Deus em Cristo. O culto é a resultante de nossa reconciliação com Deus promovida por Jesus Cristo - “Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (Ef.2:13).

III. UMA PROMESSA SUPERIOR

“A promessa da Nova Aliança é de natureza interior e espiritual; de natureza individual e universal; bem como de natureza relacional”.

1. De natureza interior e espiritual. Debaixo da Antiga Aliança, Deus havia chamado os israelitas para ser o seu povo (Êx.19:5,6). Foi firmado um pacto no Sinai (Êx.19:7,8); todavia, deliberadamente, eles resolveram descumprir esse pacto. Uma vez que os israelitas quebravam continuamente o pacto de Deus, ficou patente que o antigo pacto não duraria para sempre, por não ser perfeito. Uma parte do pacto envolvia a observância às leis de Deus; no entanto, os israelitas decidiram desobedecer (cf. Jr.7:23,24):

“Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem. Mas não ouviram, nem inclinaram os ouvidos, mas andaram nos seus próprios conselhos, no propósito do seu coração malvado; e andaram para trás e não para diante”.

Quando os israelitas deixaram de cumprir os requisitos que lhes foram impostos, quebraram a Aliança. Deus, entretanto, prometeu um novo pacto, que não estaria repleto de leis sobre sacrifícios e outras responsabilidades externas. Ao contrário, ele trazia a reconciliação espiritual, produzindo mudanças no interior das pessoas. Diz o escritor sagrado:

“Porque, repreendendo-os, lhes diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que com a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerei um novo concerto, não segundo o concerto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; como não permaneceram naquele meu concerto, eu para eles não atentei, diz o Senhor. Porque este é o concerto que, depois daqueles dias, farei com a casa de Israel, diz o Senhor: porei as minhas leis no seu entendimento e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por Deus, e eles me serão por povo. E não ensinará cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior. Porque serei misericordioso para com as suas iniquidades e de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais. Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro. Ora, o que foi tornado velho e se envelhece perto está de acabar” (Hb.8:8-13).

2. De natureza individual e universal. Diz o texto sagrado: “E não ensinará cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior” Hb.8:11). Aqui, o autor sagrado argumenta que a Nova Aliança também inclui conhecimento universal do Senhor. Durante o Reino glorioso de Cristo, não será necessário ao homem ensinar ao seu próximo ou ao seu irmão a conhecer o Senhor. Cada um terá uma consciência interior do Senhor, desde o menor deles até ao maior -“a Terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as aguas cobrem o mar” (Is.11:9). Isso é mui maravilhoso a todos aqueles que esperam a volta do Senhor Jesus!

3. De natureza relacional. O aspecto relacional é posto em evidência na citação de Hb.8:12: "Porque serei misericordioso para com as suas iniquidades e de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais". A Nova Aliança é um concerto de misericórdia, graça e perdão. A Nova Aliança promete misericórdia para um povo injusto e eterno esquecimento de seus pecados. A lei veterotestamentária era inflexível e rígida - ”Toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo” (Hb.2:2). Além disso, na Antiga Aliança, a lei não poderia tratar com eficácia os pecados. Ela fornecia a expiação dos pecados, mas não para a remoção deles. Os sacrifícios recomendados na lei purificavam o homem para as cerimônias, ou seja, eles o qualificavam para participar da vida religiosa da nação. Esse ritual de purificação era externo, não tocava a vida interior; ele não provia purificação moral nem dava ao homem consciência pura. O homem podia ser reto cerimonialmente e perverso no coração, ou reto no coração e incorreto cerimonialmente.

Na Antiga Aliança, o sistema levítico, em vez de pacificar a consciência, tentava despertá-la todo ano (Hb.10:3). Por trás do belo ritual do dia da Expiação, espreitava a lembrança anual de que os pecados estavam apenas cobertos, e não removidos. Todavia, na Nova Aliança, Deus não mais se lembra dos pecados de seu povo – “E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” (cf.Hb.10:17).

CONCLUSÃO

A Antiga Aliança foi cumprida por Cristo e completada por Ele; portanto, não mais era necessária a prática dos seus ritos na Nova Aliança. Sistemas antigos, sacrifícios antigos e o antigo sacerdócio agora não têm mais valor para selar a aprovação de Deus. A Antiga Aliança tinha servido ao seu propósito, e em breve seria apenas uma lembrança. Não se pode viver no passado, de modo que a escolha real é clara: aceitem a Nova Aliança ou nenhuma. Embora a Nova Aliança tenha sido feita com Israel, e não com a Igreja, os cristãos têm garantido o extraordinário privilégio de experimentar certos benefícios do novo pacto que passaram a vigorar quando Cristo derramou Seu sangue na cruz. Hoje, a Igreja usufrui das bênçãos espirituais da salvação, estabelecidas na Nova Aliança. As bênçãos físicas do Novo Testamento serão cumpridas com Israel, no Milênio. Os que seguem a Cristo são “ministros de uma Nova Aliança” (2Co.3:6), e foram chamados para divulgar a mensagem da salvação. Louvado seja Deus por tão grande salvação!

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Luciano de Paula Lourenço
Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
Referências Bibliográficas:
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) - William Macdonald.
Revista Ensinador Cristão – nº 73. CPAD.
Comentário Bíblico Pentecostal. CPAD.
Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.
Dr. Caramuru Afonso Francisco. O Sacerdócio eterno de Cristo. PortalEBD_2008.
David M. Levy. Um sacrifício perfeito, uma Aliança superior.  http://www.chamada.com.br.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Aula 07 – JESUS – SUMO SACERDOTE DE UMA ORDEM SUPERIOR


1º Trimestre/2018

Texto Base: Hebreus 7:1-19

"Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, efeito mais sublime do que os céus" (Hb.7:26).

INTRODUÇÃO

Dando continuidade ao estudo da Epistola aos Hebreus, estudaremos nesta Aula o capítulo 7. Trataremos a respeito do ofício sumo sacerdotal eterno e perfeito de Cristo, cuja ordem é muito superior à ordem levítica (Hb.7:17). O sacerdócio de Jesus é superior ao sacerdócio levítico porque Jesus jamais pecou e, por isso, pôde oferecer um sacrifício perfeito, único e que não cobriu, mas tira o pecado de todos os que o aceitarem como Senhor e Salvador. Na Cruz do Calvário, quando ele declarou “está consumado”(João 19:30), o preço da redenção foi pago; a punição exigida pela justiça de Deus estava concretizada sobre Jesus. Agora, nEle o homem pode ser justificado.
Todo o sistema de sacrifício levítico, apresentado no Antigo Testamento, deu lugar ao sacrifício completo de Jesus no Calvário. Dia após dia, um sacerdote levita entrava no templo e oferecia sacrifícios de animais para a remissão de pecados, conforme determinava a Lei de Moisés. Mas o fato é que nenhum de seus sacrifícios podia torná-los perfeitos ou livrá-los da consciência do pecado (Hb.9:9). Por quê? “Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb.10:4). O sangue de animais não tinha o poder de efetuar a redenção; a imolação ritual não podia purificar a carne, isto é, realizar a purificação cerimonial (Hb.9:13).
Deus Pai enviou Seu Filho Jesus para ser o sacrifício perfeito pelo pecado. Jesus tomou parte na obra da redenção e tornou-se o sacrifício da expiação, com profundo e total envolvimento, e não em resignação passiva. Obedecendo à vontade do Pai, Cristo entregou Seu corpo como uma oferta definitiva, permitindo que o pecado do homem fosse removido (Hb.10:5-10). A conclusão é óbvia: Deus revogou o primeiro sacrifício, que dependia da morte de animais, para estabelecer o segundo sacrifício, que dependia da morte de Cristo.

I. QUANTO AO ASPECTO DE SUA TIPOLOGIA

1. Um sacerdócio com realeza. Na ordem sacerdotal arônico, proveniente da tribo de Levi, não era previsto a existência de um sacerdote-rei. No contexto bíblico, isto só poderia ocorrer se fosse de outra ordem. Na ordem sacerdotal levítico, a função sacerdotal de oferecer sacrifícios e representar o povo diante de Deus, cabia somente aos sacerdotes (1Sm.13:9,13; 2Cr.26:16-18); aos reis de Israel não lhes era dada esta nobre função; aqueles que quiseram usurpar esta função sagrada, como Saul e o rei Uzias, foram repreendidos severamente pelo Senhor (1Sm.13:8-14; 2Cr.26:16-23).

A Bíblia diz que Melquisedeque era, ao mesmo tempo, rei e sacerdote (que era impossível sob a Lei de Moisés), e como rei governava sobre Salém (cf. Gn.7:2). A figura histórica de Melquisedeque como rei de Salém aparece em Gênesis 14:18-20 no contexto da guerra de cinco reis contra quatro no vale do rei. Ele parece ter sido um homem extraordinário que serviu ao seu povo tanto no oficio de rei como no de sacerdote. Salém se tornou posteriormente a cidade de Jerusalém.

Durante anos, muitos acreditavam que Melquisedeque fosse o próprio Cristo aparecendo em forma humana a Abraão – o que é tecnicamente chamado de “cristofania” (um aparecimento de Cristo no Antigo Testamento); isto, porém, parece improvável porque foi dito que Melquisedeque se assemelhava a Cristo (Hb.7:3). O texto não diz que Jesus se assemelhava a Melquisedeque, mas que Melquisedeque se assemelhava a Jesus, de forma que o seu sacerdócio continuou sem interrupção. Uma antiga interpretação judaica dizia que Melquisedeque era um ser angelical, mas não há qualquer evidência em Gênesis, em Salmos 110:4 ou em Hebreus para apoiar esta teoria. A melhor interpretação é que Melquisedeque era um sacerdote-rei histórico, não-judeu, que viveu nos tempos antigos. Estudiosos da Bíblia supõem que Melquisedeque pertencia a uma dinastia de reis-sacerdotes, que tiveram conhecimento do Deus Altíssimo pela tradição oral inspirada, transmitida desde o princípio, quando a religião era única e monoteísta e que conservava a esperança do Redentor da raça humana, prometido por Deus, após a queda do homem, conforme Gn.3:15. Ele era uma figura e um tipo de Cristo (Sl.110:4).

Portanto, Melquisedeque foi um homem real, um servo de Deus, cuja história é registrada no Livro de Gênesis de forma a fazê-lo semelhante Àquele que viria e cumpriria completamente os ofícios de sacerdote e rei, e que seria verdadeiramente um Sacerdote para sempre. Jesus, que era da tribo de Judá, é levantado por Deus como Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Diz o autor aos Hebreus: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb.7:17). Sendo da ordem de Melquisedeque, Jesus Cristo era tanto sacerdote como rei.

2. Um sacerdócio firmado na justiça. Uma das razões pelas quais Melquisedeque é tão significativo é que o seu nome significa “rei de justiça” (o sufixo deste nome, “quisedeque”, significa “justiça”). Ele é também o “rei de paz”, porque Salém significa “paz” (o termo “Salém” pode ser traduzido como “paz”). No nome e na posição de Melquisedeque, a justiça e a paz andam juntas. Portanto, Melquisedeque representa os mesmos traços de caráter do Messias, o Senhor Jesus Cristo, que revelou a justiça e a paz de Deus; Ele brevemente reinará com justiça e cujo reinado não terá fim (cf.Is.32:1; Jr.23:5; Lc.1:33).

3. Um sacerdócio com legitimidade divina. Afirma o texto sagrado: “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas, sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (Hb.7:3). Aqui, o autor sagrado não fornece uma genealogia para Melquisedeque, nem um registro de sua morte. Conquanto a Bíblia não forneça detalhes sobre a vida de Melquisedeque, é muito provável que ele tenha sido um rei e um sacerdote humano que realmente teve pais e que, portanto, nasceu e por fim morreu.

Por não haver nenhum registro de pai, ou mãe, ou genealogia, no texto bíblico, é como se ele não os tivesse. Pelo fato de o texto não registrar princípios de dias nem fim de dias, é como se Melquisedeque nunca tivesse nascido ou morrido. A comparação é feita entre a ordem sacerdotal de Melquisedeque e a de Arão, que dependia inteiramente da genealogia. Os sacerdotes na família de Arão sucediam-se por ocasião da morte do sacerdote anterior, tornando a data da morte extremamente importante. Nenhum dos aparatos do sacerdócio de Arão (Êxodo 39) foi aplicado a Melquisedeque, exceto a sua nomeação por parte de Deus. Desta forma, Melquisedeque prefigura o Senhor Jesus Cristo, que é o emissário especial de Deus, cujo sacerdócio é dotado de plena legitimidade divina.

II. QUANTO AO ASPECTO DE SUA NATUREZA

“A natureza do sacerdócio de Cristo é expressa pela sua imutabilidade, perfeição e eternidade”.

1. Um sacerdócio perfeito. Diz o autor de Hebreus: “De sorte que, se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico (porque sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade havia logo de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de Melquisedeque, e não fosse chamado segundo a ordem de Arão?” (Hb.7:11). Aqui, o autor destaca que o problema do relacionamento do homem com Deus só pôde ser resolvido por um sacrifício perfeito, algo que o sistema levítico não tinha possibilidade de realizar.

Em Hb.7:11-19, o autor procura mostrar como o sacerdócio levítico e o sistema ritual de sacrifícios eram insuficientes para salvar o povo de seus pecados. Portanto, este sistema era meramente preparação, uma figura, do que viria e se cumpriria. Se o sacerdócio levítico tivesse sido suficiente, o autor pergunta: “que necessidade havia logo de que outro sacerdote se levantasse?”. O sacerdócio levítico não poderia permitir que o povo se aproximasse de Deus, porque apenas os sacrifícios de animais realmente não poderiam fazer nada para remover os pecados. Assim, os propósitos de Deus não poderiam ser alcançados através do sacerdócio do Antigo Testamento, porque, desde o principio, este tinha o propósito de ser uma sombra daquilo que estava por vir. Quando viesse esse caminho melhor, o antigo caminho se tornaria obsoleto (veja Hb.8:7-13). Um novo caminho significaria uma nova lei e um novo sistema (Hb.7:12). Deus não poderia simplesmente prover um outro sacerdote humano antes; Ele proveu algo novo.

O fato é que a perfeição não era realizável mediante o sistema levítico. Os pecados nunca eram aniquilados, e os adoradores nunca obtinham descanso de consciência. Mas outro tipo de sacerdócio esta agora em vigor. O sacerdote perfeito veio, e seu sacerdócio não é reconhecido “segundo a ordem de Arão”, mas, “segundo a ordem de Melquisedeque”. Como Sacerdote, Ele não oferece sacrifícios a Deus, mas sim ofereceu-se em sacrifício, e mediante este sacrifício vicário é que podemos ser chamados de filhos de Deus. Jesus é verdadeiramente o Sumo Sacerdote superior e perfeito.

2. Um sacerdócio imutável. O Espírito Santo havia falado pela boca de Davi que seria levantado um sumo sacerdote de outra ordem, a ordem de Melquisedeque (Sl.110:4). Se uma nova ordem se instauraria, consequentemente a antiga passaria. Isto se cumpriu literalmente em Jesus Cristo. Diz o texto sagrado:

“Porque aquele de quem essas coisas se dizem pertence a outra tribo, da qual ninguém serviu ao altar, visto ser manifesto que nosso Senhor procedeu de Judá, e concernente a essa tribo nunca Moisés falou de sacerdócio. E muito mais manifesto é ainda se, à semelhança de Melquisedeque, se levantar outro sacerdote, que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível” (Hb.7:13-16).

O fato de que o sacerdócio mudou reforça a conclusão de que também mudou toda a estrutura legal sobre a qual ele era baseado, a lei mosaica. Diz o texto sagrado:

“Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei” (Hb.7:12).

Este é um anúncio bastante radical. Na verdade, a lei não foi mudada, mas foi cumprida; deste modo, as suas partes cerimoniais tornaram-se obsoletas (tais como o sistema de sacrifícios de animais). As leis cerimoniais foram substituídas pelo próprio Cristo, que foi o sacrifício final e suficiente.

Cristo não é apenas um outro sacerdote no antigo sistema; antes, o sistema inteiro foi mudado, com Cristo como o Sumo Sacerdote no novo sistema. Para os cristãos que estavam se inclinando ao judaísmo, estas palavras serviriam como um lembrete de que os seus antigos caminhos judaicos tinham sido cumpridos e substituídos pelo precioso Cristo.

Portanto, o sacerdócio de Cristo não há interrupção em sua eficácia (Hb.7:24). Ele é imutável e intransferível.

3. Um sacerdócio eterno. Diz o autor sagrado: “Porque dele assim se testifica: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb.7:17). Deus Pai declarou Jesus Cristo sacerdote para sempre. O pensamento destacado aqui é o fato de que, diferente do sacerdócio de Arão, o sacerdócio de Cristo é para sempre. Seu ministério nunca cessará porque sua vida nunca terá fim. Aquele que nunca morre tornou-se o Sumo Sacerdote final, e o seu sacrifício consertou para sempre a ruptura que o pecado humano criou entre o Deus Todo-poderoso e a humanidade pecadora.

O historiador Josefo estimou que oitenta e três sumos sacerdotes serviram a Israel, desde o primeiro sumo sacerdote, Arão, até a queda do segundo Templo, em 70 d.C. Cada um serviu em seu oficio, e por fim morreu; mas, Jesus permanece eternamente. Ele é imortal, cumprindo a profecia de Salmos 110:4. O antigo sacerdócio era incompleto e agora está abolido.

“E, na verdade, aqueles foram feitos sacerdotes em grande número, porque, pela morte, foram impedidos de permanecer; mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb.7:23-25).

III. QUANTO AO ASPECTO DE SEUS ATRIBUTOS

“Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que os céus” (Hb.7:26).

1. Um sacerdócio santo (Hb.7:26). O Sacerdote era uma pessoa que deveria viver separada do pecado, tanto que as regras relativas à separação eram muito mais rigorosas para os sacerdotes do que para os demais israelitas, a ponto, mesmo, de Arão ter sido chamado “o santo do Senhor” (Sl.106:16). A lei mosaica exigia que o sumo sacerdote não apresentasse nenhum defeito, inclusive físico (Lv.21:16-23). Até suas vestes eram santas (Êx.28:2,4; 29:29). Contudo, eram homens falhos, imperfeitos, sujeitos ao pecado.

O sacerdócio de Cristo é superior ao de Arão por causa da excelência pessoal. Jesus, nosso Sumo Sacerdote, era e é santo no sentido pleno da palavra. Ele sempre viveu separado do pecado - é o Santo (Lc.1:35), o Santo e o Justo (At.3:14), o Santo de Deus (Mc.1:24; Lc.4:34)-, de forma que, como tal, também preenchia este requisito para ser sacerdote. Ele cumpriu perfeitamente tudo o que Deus Pai exigia em um sumo sacerdote que traria a salvação para pessoas pecadoras.

2. Um sacerdócio inculpável (Hb.7:26). Cristo é inculpável ou inacusável em sua conduta perante os homens. Ele é completamente irrepreensível. Durante a sua vida terrena, mesmo quando enfrentou a tentação, Jesus permaneceu completamente obediente a Deus e completamente sem pecado. Ele guardou-se da corrupção do mundo. O apóstolo Pedro afirmou que Jesus "não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano" (1Pd.2:22). Portanto, não havia culpa nem imperfeição no sacerdócio de Cristo Jesus.

3. Um sacerdócio imaculado. O cordeiro, na antiga Lei, tinha que ser sem mancha (Lv.9:3; 23:12; Nm.6:14). Cristo é sem mácula em seu caráter pessoal. Ele, como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29), não tinha qualquer mancha moral ou espiritual. Ele permanece puro mesmo quando lida com pessoas pecadoras em um mundo corrompido. Diferentemente dos sacerdotes arônicos, Jesus é “separado dos pecadores”. O Filho de Deus assumiu a condição humana e se fez pecado pelos homens (2Co.5:21), mas sem pecar. Cristo é o sacerdote imaculado e sem manchas.

CONCLUSÃO

Aprendemos nesta Aula que, a partir da semelhança de Cristo com Melquisedeque, o sacerdócio de Cristo é superior ao sacerdócio da ordem levítica. Enquanto o sacerdócio de Arão e a ordem levítica eram imper­feitos, a superioridade do sacerdócio de Cristo se revela na sua perfeição como Filho de Deus. Com isto, devemos ser gratos a Deus por fazermos parte de sua linhagem espiritual.

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Luciano de Paula Lourenço
Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
Referências Bibliográficas:
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) - William Macdonald.
Revista Ensinador Cristão – nº 73. CPAD.
Comentário Bíblico Pentecostal. CPAD.
Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.
Dr. Caramuru Afonso Francisco. O Sacerdócio eterno de Cristo. PortalEBD_2008.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Aula 06 – PERSEVERANÇA E FÉ EM TEMPO DE APOSTASIA


1º Trimestre/2018

Texto Base: Hebreus 6:1-15

"Para que vos não façais negligentes, mas sejais imitadores dos que, pela fé e paciência, herdam as promessas" (Hb.6:12).

INTRODUÇÃO

Dando continuidade ao estudo da Epístola aos Hebreus, estudaremos nesta Aula o capítulo 6. Trataremos da “Perseverança e fé em tempo de apostasia”. Perseverança é uma qualidade daquele que persiste, que tem constância nas suas ações e não desiste diante das dificuldades; é continuar fazendo o bem, independentemente das circunstâncias, por amor a Deus. Os cristãos destinatários da Epístola davam sinais de cansaço, indolência, negligência e imaturidade espiritual, o que poderia trazer como consequência o esfriamento e o fracasso na fé. Seria uma desgraça para aqueles cristãos, se eles não demovessem da ideia de se apostatar da fé. A apostasia é retratada pelo autor como algo real e não apenas como um perigo hipotético, por isso, ele exorta que para se evitar esse mal, de consequências deletérias e permanentes no âmbito espiritual, é necessário perseverança, fé e confiança nas promessas de Deus. À luz de Hebreus, neste tempo de apostasia, somos chamados a perseverar na comunhão com Cristo e a viver em fé na esperança renovada de que um dia estaremos para sempre com o Senhor. Seguir Jesus nem sempre é fácil, mas se perseverarmos receberemos a recompensa de Deus.

I. A NECESSIDADE DO CRESCIMENTO ESPIRITUAL

Depois de admoestar os cristãos destinatários pela espiritualidade infantil que demonstravam, o autor da Epístola alerta a esses cristãos que não cederia à imaturidade deles, provendo-os somente com “leite”, porque apresentar as doutrinas básicas sob uma nova forma não os ajudaria a resistir à tentação de se desviar de Cristo. Eles deviam ganhar um entendimento mais profundo, movendo-se para além dos princípios elementares da doutrina de Cristo, literalmente “a palavra de início da doutrina de Cristo” ou “a palavra inicial da doutrina de Cristo”. Concordo com William Macdonald que isso se refere às doutrinas básicas da religião ensinadas no Antigo Testamento e destinadas a preparar Israel para a vinda do Messias. Essas doutrinas estão listadas na última parte de Hb.6:1 e em Hb.6:2. Segundo Macdonald, elas não são as doutrinas fundamentais do cristianismo, mas os ensinos de natureza elementar que formavam a base para a construção posterior. Elas não completavam o Cristo ressurreto e glorificado. A exortação é para deixar esses princípios básicos, não no sentido de abandoná-los como inúteis, mas de avançar deles para a maturidade. Como consequência, o período do judaísmo foi um período de infância espiritual. O cristianismo representa a fase adulta.

Estabelecido o fundamento, o próximo passo é construir sobre ele. O fundamento doutrinário foi assentado no Antigo Testamento e inclui os seis ensinamentos básicos listados, a saber: “o arrependimento de obras que estão mortas; a fé em Deus; o ensino sobre os batismos; o ritual de imposição de mãos; o ritual de imposição de mãos; a ressurreição dos mortos e; o Juízo eterno”. Eles constituem o ponto de partida. As grandes verdades do Antigo Testamento quanto a Cristo, sua pessoa e obra representam o ministério da maturidade. Veja, a seguir, como William Macdonald analisa estes elementos básicos, exarados em Hb.6:1,2.

1. O arrependimento de obras que estão mortas. Essa doutrina foi constantemente pregada pelos profetas, assim como pelo precursor de Jesus, João Batista. Todos eles clamaram ao povo a deixar suas obras, que estavam mortas no sentido de que eram destituídas de fé. Obras mortas podem se referir às obras que incialmente eram corretas, mas que agora são mortas desde a vinda de Cristo. Todos os serviços relacionados à adoração no templo, por exemplo, tornaram-se obsoletos com a Obra de Cristo concluída.

2. A fé em Deus. Este ensino se trata de uma ênfase do Antigo Testamento. No Novo Testamento, Cristo é quase invariavelmente apresentado como o Objeto da fé. Não que isso substitua a fé em Deus; mas a fé em Deus que deixa Cristo fora tornou-se inadequada.

3. O ensino sobre os batismos. Esse ensino não se refere ao batismo cristão, mas à cerimônia de lavagens, que era uma figura de destaque na vida religiosa dos sacerdotes e do povo de Israel.

4. O ritual de imposição de mãos. Esse ritual é descrito em Levítico 1:4; 3:2; 16:21. O ofertante, ou o sacerdote, impunha as mãos sobre a cabeça de um animal como ato de identificação. Simbolicamente, o animal levava os pecados do povo que estavam associados a ele. Essa cerimônia simbolizava expiação vicária. Não acreditamos que haja neste ponto alguma referencia à imposição de mãos como praticada pelos apóstolos e outros servos de Deus na igreja primitiva (Atos 8:17; 13:3; 19:6).

5. A ressurreição dos mortos. Essa doutrina, no Antigo Testamento, é ensinada em Jó 19:25-27, Daniel 12:2, Salmos 17:15 e deduzida em Isaías 53:10-12. O que se vê indistintamente no Antigo Testamento é revelado de modo claro no Novo Testamento (cf. 2Tm.1:10; 1Tes.4:16).

6. Juízo eterno. Essa doutrina pode ser vista em Salmos 9:17, Daniel 7:9,10 e Isaías 66:24. No Novo Testamento, o Juízo eterno é revelado em Apocalipse 20:11-15; este é o chamado “Julgamento Final” ou “Juízo Final” ou, ainda, o “Juízo do Trono Branco”, que terá lugar depois do término do reino milenial de Cristo.

Estes princípios eram ensinados no judaísmo e eram preparatórios para a vinda de Cristo. Os cristãos não deveriam satisfazer-se com isso, mas avançar para a revelação mais completa que tinham agora em Cristo. Os cristãos destinatários são incitados a passar da sombra para a substância, do tipo para o antítipo, da casca para a semente, das formas mortas da religião de seus ancestrais para as vivas realidades de Cristo.

II. A NECESSIDADE DA VIGILÂNCIA ESPIRITUAL

“Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e as virtudes do século futuro, e recaíram sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus e o expõem ao vitupério” (Hb.6:4-6).

1. Apostasia, uma possibilidade para quem foi iluminado e regenerado. Apostasia deriva-se da expressão grega “apostásis”, que significa afastamento. Para o cristão, apostasia significa abandonar a fé cristã de forma consciente e deliberada. Então, para que haja apostasia é necessário que a pessoa tenha experimentado o novo nascimento, e de forma consciente e deliberada, abandona a fé e passa a negar toda verdade por ela experimentada. Ninguém pode abandonar aquilo que nunca teve. Crente salvo pode cometer apostasia; crente não salvo, não pode, pois ele não pode abandonar o que nunca teve.

Os cristãos hebreus foram iluminados através da revelação de Deus em Cristo (Hb.6:4); experimentaram o dom celestial, o Espírito Santo, e a boa Palavra de Deus e as virtudes do século futuro (Hb.6:4,5); o evangelho de Cristo foi pregado entre eles com toda manifestação de poder e milagres. Para essas pessoas, caso se desviassem, seria impossível serem renovadas outra vez para arrependimento, uma vez que deliberadamente rejeitariam a Cristo, declarando que a sua crucificação não possuía mais o sentido que antes lhe atribuíam. O escritor aos Hebreus sentiu bem de perto o perigo que aqueles crentes nessas circunstâncias enfrentavam, por isso os advertiu.

Quando o cristão estaciona na fé e não se aprofunda no conhecimento das coisas de Deus, corre o risco de ser levado por ventos de doutrinas (Ef.4:14) e apostatar, vindo a perder-se eternamente por não se arrepender.

2. Apostasia, uma possibilidade para quem vivenciou a Palavra e o Espírito. Diz o autor da Epístola: “Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus...” (Hb.6:4,5). Aqui, o autor afirma que a possibilidade de decair da graça é posta para aqueles que “uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus" (Hb.6:4,5). Segundo o autor, para essas pessoas é impossível renovar para o arrependimento (Hb.6:6).

- Uma vez essas pessoas tinham sido iluminadas. Tinham ouvido o evangelho da graça de Deus. Não estavam na escuridão no que diz respeito ao caminho da salvação. Judas Iscariotes tinha sido iluminado, mas rejeitou a luz.

- Essas pessoas provaram o dom celestial. O Senhor Jesus é o dom celestial. Essas pessoas o tinham provado, mas nunca o receberam por um ato de fé definitivo. É possível provar sem comer e beber. Quando os soldados ofereceram a Jesus crucificado vinho misturado com fel, ele provou, mas não bebeu (Mt.27:34). Não é o suficiente provar Cristo se não “comermos a carne do Filho do Homem e bebermos o seu sangue”; ou seja, não temos vida em nós mesmos, a menos que verdadeiramente o recebamos como Senhor e Salvador (João 6:53).

- Essas pessoas tinham se tornado participantes do Espírito Santo. Os crentes tornam-se participantes da vocação celestial (Hb.3:1); participantes de Cristo (Hb.3:14) e, dessa forma, participantes do Espírito Santo (Hb.6:4). Somente os nascidos de novo participam do Espírito Santo (João 14:17). Portanto, trata-se de uma advertência para os salvos.

- Essas pessoas tinham provado a boa Palavra de Deus (Hb.6:5). Quando ouviram a pregação do evangelho, elas foram atraídas por ela. Eram como a semente que caiu sobre o solo rochoso: ouviram a Palavra e imediatamente a receberam com alegria, mas não tinham raiz. Elas perseveraram por um tempo, mas, quando surgiu a tribulação ou perseguição por causa da Palavra, essas pessoas prontamente a abandonaram (Mt.13:20,21).

3. Apostasia, uma possibilidade para quem viveu as expectativas do Reino. Esses crentes, aos quais o autor se referia, também experimentaram “e provaram...as virtudes do século futuro” (Hb.6:5). Na Bíblia Almeida Revista e Atualizada está escrito que esses crentes tinham provado “os poderes do mundo vindouro”. “Poderes” aqui significa “milagres”. O mundo vindouro é o período do milênio, a futura era de paz e prosperidade quando Cristo reinará sobre a Terra por mil anos. Os milagres que acompanharam a pregação do evangelho na primeira fase da Igreja (Hb.2:4) foram uma antecipação dos sinais e das maravilhas que acontecerão no Reino de Cristo. Esses crentes tinham testemunhado esses milagres no século I; devem ter participados deles de fato. Veja, por exemplo, os milagres dos pães e dos peixes. Depois de Jesus ter alimentado milhares de pessoas, o povo o seguia para o outro lado do mar. O Salvador percebeu que, embora tivessem provado um milagre, eles realmente não acreditavam nele. Ele lhes disse: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes os sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” (João6:26). Quem despreza a graça de Deus, não se torna um "cidadão real" do Reino de nosso Jesus Cristo.

Portanto, para aquelas pessoas que caíram depois de desfrutar os privilégios enumerados em Hb.6:4,5, é impossível outra vez renová-los para arrependimento. Eles cometeram o pecado da apostasia. Não é porque Jesus não sinta o desejo de salvá-los, mas porque suas mentes estão cauterizadas de tal maneira que não mais sentirão nenhum desejo de se arrepender dos seus pecados e seguir a Cristo. Na verdade, essas pessoas de novo crucificaram o Filho de Deus e o expuseram ao vitupério (cf. Hb.6:6). Essas pessoas mostraram desprezo por Cristo através de suas ações deliberadas. Seria como crucificar pessoalmente a Cristo outra vez. Essas pessoas nunca poderão ser restauradas porque elas não desejarão ser restauradas. Elas escolheram endurecer seus corações contra Cristo. Não é impossível que Deus as perdoe; antes, é impossível que sejam perdoadas, porque não se arrependerão de seus pecados; “Elas alcançaram o lugar onde as luzes se apagam no caminho para o inferno” (William Macdonald).

Portanto, para os cristãos hebreus, e também para os cristãos da atualidade, Hebreus 6:4-6 revela o perigo de abandonar de forma deliberada e consciente a fé em Cristo Jesus e, dessa maneira, cometer a apostasia. Aqueles que rejeitarem a Cristo não serão salvos - “Quem crer...será salvo; mas quem não crer será condenado” (Mc.16:16). Cristo morreu uma vez por todos aqueles que creem. Ele não será crucificado outra vez.

III. A NECESSIDADE DE CONFIAR NAS PROMESSAS DE DEUS

1. O serviço cristão e a justiça de Deus. Após o autor argumentar fortemente que não se pode brincar com a fé, agora ele vê a necessidade de consolar os cristãos depois desse "tratamento de choque" (Hb.6:9,10).

“Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos. Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e do trabalho da caridade que, para com o seu nome, mostrastes, enquanto servistes aos santos e ainda servis”.

- “Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos”. As duras advertências são agora equilibradas com uma nota consoladora. O autor garante aos cristãos destinatários que as terríveis advertências de tragédia e perda espiritual não serão, felizmente, decretadas contra os crentes hebreus. Todavia, eles deveriam avançar em sua fé cristã. Eles não podiam ser preguiçosos, mas agora deveriam prosseguir. A frase “de vós, ó amados, esperamos coisas melhores e coisas que acompanham a salvação” refere-se à nova Aliança, em comparação à Antiga. As “coisas melhores” estão na nova Aliança, através de Jesus Cristo. Não haveria motivo para voltar às “coisas antigas” do judaísmo que não poderiam trazer a salvação.

- “Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e do trabalho da caridade que, para com o seu nome, mostrastes, enquanto servistes aos santos e ainda servis” (Hb.6:10). Aqui, o autor argumenta que, embora o crente possa não receber um galardão e aplausos imediatamente neste mundo, Deus conhece os esforços que são feitos por amor e no trabalho de Deus; Ele não se esquecerá do trabalho árduo que cada crente faz por Ele e para Ele. Aos crentes fiéis no serviço de Deus, em sua justiça, Ele os recompensará; mesmo não recebendo o reconhecimento dos homens, teremos o reconhecimento de Deus. Um exemplo de trabalho árduo, que os cristãos hebreus realizavam, era o cuidado deles por outros cristãos. O que os crentes fazem por outros é feito para Deus (cf. Mt.25:35; Rm.12:6-18; 1João 4:19-21). As boas obras não garantem a salvação, mas a salvação muda a vida do povo de Deus, levando-o a fazer boas obras.

2. A perseverança de Abraão e a fidelidade de Deus. Após encorajar os destinatários a imitarem outras pessoas fiéis, o autor ofereceu um exemplo do Antigo Testamento que valeria a pena imitar por causa da fé e da paciência: Abraão. Os cristãos podiam confiar nas promessas de Deus porque Abraão confiou e foi recompensado.

 “Mas desejamos que cada um de vós mostre o mesmo cuidado até ao fim, para completa certeza da esperança; para que vos não façais negligentes, mas sejais imitadores dos que, pela fé e paciência, herdam as promessas. Porque, quando Deus fez a promessa a Abraão, como não tinha outro maior por quem jurasse, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente, abençoando, te abençoarei e, multiplicando, te multiplicarei. E assim, esperando com paciência, alcançou a promessa” (Hb.6:11-15).

Deus havia feito uma promessa a Abraão, que está registrada em Gênesis 22:17: “Certamente, abençoando, te abençoarei e, multiplicando, te multiplicarei”. Não era realmente necessário para Deus jurar que Ele manteria a sua promessa, porque Deus não pode mentir ou quebrar a sua Palavra. No entanto, Deus fez a promessa, jurando pelo maior padrão e com a maior responsabilidade possível – “jurou por si mesmo”. Abraão não poderia ter recebido uma garantia maior do que esta. Abraão esperou “com paciência” a promessa, e esta paciência foi recompensada. A espera paciente de Abraão durou vinte e cinco anos – da época em que Deus lhe prometeu um filho (Gn.17:16) até o nascimento de Isaque (Gn.21:1-3).

Pelo fato de as nossas aflições e tentações serem frequentemente muito intensas, elas parecem durar uma eternidade. Tanto a Bíblia Sagrada quanto o testemunho de cristãos maduros nos encorajam a esperar que Deus aja em seu tempo certo, mesmo quando as nossas necessidades parecem grandes demais para que possamos esperar. Toda promessa de Deus tem a garantia de cumprimento, como se ela já tivesse se realizado; assim sendo, podemos confiar em Deus.

3. Cristo, sacerdote e precursor do crente. “À qual temos como âncora da alma segura e firme e que penetra até ao interior do véu, onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb.6:19,20).

A confiança nas promessas de Deus não só nos mantém seguros, mas nos conduz através da cortina do Céu, levando-nos ao interior do “véu” de Deus. O interior do “véu” refere-se ao Santo dos Santos, no Templo judeu. Uma cortina era posta na entrada desse ambiente, impedindo que alguém entrasse, ou até mesmo que tivesse um rápido vislumbre do interior do Santo dos Santos, onde Deus residia entre o seu povo. O sumo sacerdote podia entrar ali apenas uma vez por ano (no Dia da Expiação), para ficar diante da presença de Deus e expiar os pecados de toda a nação. Mas Jesus já entrou ali em nosso favor, como nosso precursor, abrindo o caminho para a presença de Deus através de sua morte na cruz. A sua morte rasgou a cortina em duas partes (Mc.15:38), permitindo que os crentes entrem diretamente na presença de Deus.

Aquilo que somente o sumo sacerdote podia fazer anteriormente, Cristo fez e permite que nós façamos também. Deste modo, a obra sumo sacerdotal de Cristo foi diferente da obra de qualquer outro sacerdote. Os outros sacerdotes tomavam os sacríficos dos outros e os representavam na presença de Deus. Agora, através de Cristo, podemos nos aproximar do trono com confiança (Hb.10:19). Seu sacerdócio eterno garante nossa preservação eterna. Assim como seguramente fomos reconciliados com Deus por sua morte, também somos salvos pela sua vida como nosso Sumo sacerdote à direita de Deus (Rm.5:10). Não é exagero dizer que o mais simples cristão sobre a terra tem a certeza do Céu como os santos que ali estão.

CONCLUSÃO

Diante do que foi exposto, temos plena consciência de que há uma imperiosa necessidade de perseverança e vigilância para não se decair da fé. Aqueles que têm a experiência gloriosa da salvação precisam cuidar-se para não caírem no engano do Diabo. É indescritível o prejuízo de quem se apostata da fé, negando a eficácia do sangue de Cristo para a salvação dos pecadores. Tais desafortunados podem chegar à situação de arrependimento impossível, e se perderem eternamente. Pense nisso!

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Luciano de Paula Lourenço
Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
Referências Bibliográficas:
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) - William Macdonald.
Revista Ensinador Cristão – nº 73. CPAD.
Comentário Bíblico Pentecostal. CPAD.
Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.
Dr. Caramuru Afonso Francisco. O Sacerdócio eterno de Cristo. PortalEBD_2008.
Dr. Caramuru Afonso Francisco. Paciência, o fruto da perseverança. PortalEBD_2005.