domingo, 20 de maio de 2018

Aula 09 – ÉTICA CRISTÃ E PLANEJAMENTO FAMILIAR


2º Trimestre/2018

Texto Base: Gênesis 1:24 – 31

 
"Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre, o seu galardão" (Sl.127:3).

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos a respeito da Ética Cristã e Planejamento Familiar. Planejamento Familiar não deve ser confundido com "Controle de Natalidade", uma iniciativa estatal que consiste em evitar o nascimento dos filhos por meio do controle rigoroso, de forma coercitiva, com o intuito de diminuir o crescimento populacional. O Planejamento Familiar é um conjunto de ações que ajudam o casal, o homem e a mulher, a planejar seus filhos; ele envolve decidir quando e quantos filhos ter, quanto tempo esperar entre um e outro e até o tipo de educação que se quer dar a eles. O Planejamento Familiar é fator importante dentre as responsabilidades pertinentes ao casamento; é uma questão ética que precisa ser analisada à luz da Palavra de Deus e discutida pela Igreja. Para o cristão, ter ou não ter filhos, não é apenas uma questão biológica, mas uma decisão que envolve fé, amor e obediência aos princípios de Deus para a família. Quando Deus disse crescei e multiplicai, não determinou quantidade de filhos para cada família. Sabemos que os filhos são dádivas de Deus, contudo a decisão de tê-los ou não, ou a decisão quanto ao número de filhos é uma resolução que o casal deve tomar em conjunto, desde que o faça sob a orientação divina e de acordo com os ditames da Palavra de Deus.

I. O CONCEITO GERAL DE PLANEJAMENTO FAMILIAR

Ter um filho é uma benção. Nós sentimos alegria, um amor imensurável e, ao mesmo tempo, bate aquele medo e a dúvida: será que vamos dar conta? Isto acontece porque aumentar a família é uma decisão importante, que não pode ser tomada de qualquer jeito. Por isso é importante saber o que é Planejamento Familiar.

1. Controle de Natalidade. Controle de Natalidade não é Planejamento Familiar, mas procedimentos de políticas demográficas, adotados por governos totalitários, com o objetivo de diminuir ou até mesmo impedir o nascimento de crianças. Nesses governos, regular o número dos filhos é visto como solução para erradicar os níveis de pobreza, bem como alternativa para a preservação do meio ambiente e o melhor uso dos recursos naturais.

Segundo o Pr. Elinaldo Renovato de Lima, Controle de Natalidade “é o conjunto de medidas limitadoras, de emergência, incluindo legislações específicas, que o governo de um determinado país adota para atingir metas demográficas restritivas (isto é, populacionais) consideradas indispensáveis ao desenvolvimento socioeconômico. Isso ocorre por exemplo, na China e na Índia, onde a população é excessiva em relação aos recursos econômicos”. Nesses países são impostos métodos contraceptivos e até a esterilização permanente. Denúncias de infanticídio saltam aos olhos, como soluções para o controle de natalidade. Por ordem do comando do governo o número de filhos é limitado à revelia da vontade dos pais.

Na Bíblia Sagrada temos o exemplo de Faraó, que temendo o fortalecimento do povo hebreu, entendeu que deveria controlar o crescimento populacional, determinando que as parteiras matassem os filhos homens que nascessem entre os hebreus (Ex.1:9,10,15-22). Por causa deste exemplo bíblico de controle da natalidade, esta prática foi associada ao maligno e combatida tenazmente pelo cristianismo clássico.

2. Planejamento Familiar. É o exercício da paternidade-maternidade responsável, e a utilização voluntária e consciente por parte do casal do instrumento necessário ao planejamento do número de filhos, e espaçamento entre uma gestação e outra. O Planejamento Familiar permite aos cônjuges analisarem algumas questões bem relevantes para uma família funcional, tais como a saúde física e mental do marido e da mulher, a idade cronológica e as condições da família (renda, moradia, alimentação). Os filhos são para toda a vida, por isso é preciso que o casal busque a orientação divina por meio da oração e se submeta a ela.

O planejamento de quantos filhos e quando os terão é decidido pelo diálogo conjugal, inspirado no amor, na fé e na esperança de felicidade nesta vida em preparação para vida eterna. Quem ama respeita, perdoa, não aborta, procura métodos anticoncepcionais naturais que não agridem os corpos das esposas e não matam a vida dos próprios filhos (ler Gn.30:14,15).

Com relação ao planejamento familiar, a Constituição brasileira é bem clara ao afirmar, em seu artigo 226, § 7º, que “o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas”, bem como que o planejamento familiar deve ser “fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável”. A lei que regula a matéria, no Brasil, é a lei 9.263, de 12 de janeiro de 1996, que define o planejamento familiar como sendo “o conjunto de ações de regulação da fecundidade, que garanta direitos iguais de constituição, limitação ou aumento da prole pela mulher, pelo homem ou pelo casal” (art.2º).

Portanto, uma política eficiente e biblicamente correta de planejamento familiar tende sempre a incentivar a paternidade responsável, ou seja, conscientizar os cidadãos da necessidade de se estabelecer planos na formação das famílias, de forma a propiciar condições internas e externas favoráveis a uma vida digna de toda a população. 

O crente, portanto, não precisa temer o planejamento familiar, pois, desde que não seja feito por meios abortivos, tal atitude não é pecaminosa e não trará prejuízos ao casal. Criar e educar filhos nos dias atuais é uma tarefa nada fácil, por isso é preciso pensar e orar antes de tomar a decisão de colocar uma criança no mundo.

II. O QUE AS ESCRITURAS DIZEM SOBRE O PLANEJAMENTO FAMILIAR

A ideia do Planejamento Familiar tem causado grandes discussões no meio do povo de Deus, como, aliás, toda ideia nova surgida na sociedade durante a história da humanidade. Alguns veem a ideia do planejamento familiar como uma afronta à natureza e à ordem estabelecida por Deus. Outros enxergam nisto apenas o exercício pelo ser humano do livre-arbítrio que lhe foi concedido pelo próprio Deus. Ambas as concepções não podem, entretanto, ser levadas ao extremo, pois o resultado disto será sempre contrário ao projeto divino para o homem. É preciso ter equilíbrio e, à luz da Bíblia Sagrada, saber como comportar-se (Ec.7:16-18).

O Primeiro Mandamento registrado nas Escrituras Sagradas foi dado ao primeiro casal, a saber: “... Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra...”(Gn.1:28). Isto tem sua razão de ser porque o homem foi criado por Deus como um ser sexuado, e um dos objetivos desta sexualidade era a procriação – “E criou Deus [...] macho e fêmea...” (Gn.1:27). Após o dilúvio, Noé e seus filhos também receberam o mesmo mandamento acerca da procriação: "Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra" (Gn.9:1). Repare que Deus não especificou qual seria o fator multiplicador nem quantos filhos deveriam ser gerados por cada família. Desta forma, temos que a ordem de Deus é que o homem e a mulher tenham filhos, como um dever até de perpetuação da espécie, não importando a quantidade de filhos. Quando alguém tem um filho já está cumprindo esta determinação divina, pois já há uma frutificação, uma multiplicação - não são mais dois, são três.

Muitos entendem que Deus determinou que se tivessem muitos filhos, pelo menos dois, porque assim se teria uma multiplicação; todavia, isto não se encontra no texto sagrado de forma alguma. Em contraste a essa cultura, as esposas dos patriarcas foram estéreis e sofreram muito até que Deus lhes abriu a madre: Sara concebeu na velhice e gerou apenas um filho: Isaque (Gn.21:2); Isaque, após o casamento com Rebeca, orou durante vinte anos pelo ventre de Rebeca, e ela gerou apenas dois filhos: Jacó e Esaú (Gn.25:21); Raquel, a esposa amada de Jacó, após anos de espera, também concebeu apenas dois filhos: José e Benjamim (Gn.35:24). Percebe-se, portanto, que não há qualquer ordem divina para que se tenham muitos filhos. Deus mandou que houvesse a frutificação, ou seja, que o casal desse fruto, que são os filhos, o que se concretiza se houver apenas um ou dois filhos. O excesso de filhos nem sempre quer dizer cumprimento à ordem divina, quiçá seja tão somente a manifestação da carnalidade do casal.

Na sociedade hebraica, porém, diante da própria ordem divina de frutificação, desenvolveu-se a ideia de que a falta de filhos era uma maldição, um opróbrio (Ex.23:26, Dt.7:14). A esterilidade feminina era um fardo pesado de carregar (Gn.25:21, 30:1; 1Sm.1:5,6; Lc.1:7,13), era motivo de discriminação (1Sm.1:6,7), provocava desavenças (Gn.30:1,2), e era vista como vergonha (Gn.30:23). Mas, enquanto a esterilidade era tida como um fardo, também a Bíblia demonstra ser uma qualidade e uma virtude dos pais a procura de uma paternidade responsável, ou seja, a busca de orientação divina para a criação de seus filhos. Foi o que ocorreu com Rebeca (Gn.25:22,23), Manuá e sua mulher (Jz.13:8,9). 

Ter filhos é uma bênção do Senhor e é um dos objetivos do casamento – “Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre, o seu galardão" (Sl.127:3) -, mas muito mais importante do que ter filhos é criá-los na doutrina e admoestação do Senhor, não os provocando à ira (Ef.6:4). Para isto é indispensável que tenhamos a orientação divina não só na educação e na criação dos filhos, mas no próprio planejamento da família. É indispensável que a família tenha a participação e soberania do Senhor Jesus na sua formação e no seu cotidiano. É por isso que o sábio fala no cordão de três dobras (Ec.4:12), ou seja, o casal e o Senhor.

Diante do que foi esclarecido, verificamos que as Escrituras Sagradas recomendam que os casais tenham filhos, pois a procriação é um dos objetivos do casamento, mas que a escolha do número de filhos seja tal que se permita a correta educação e criação deles, na doutrina e admoestação do Senhor, e que tudo seja feito de acordo com a vontade do Senhor, debaixo da Sua orientação e graça.

(Adaptado do texto “O Cristão e O Planejamento Familiar”. Pr. Caramuru Afonso Francisco. PortalEBD_2002).

III. ÉTICA CRISTÃ E O LIMITE DO NÚMERO DE FILHOS

1. A questão do fator de multiplicação. Quando Deus disse “crescei e multiplicai-vos”, Ele deu uma ordem de caráter geral (humanidade) e não específica (cada pessoa); ou seja, Deus ordenou a reprodução da raça humana, não a reprodução de cada pessoa. Do contrário, os solteiros e os viúvos (1Co.7:8), os celibatários (Mt.19:12) e os casados estéreis (Lc.23:29) estariam em pecado de desobediência, pois há uma ordem expressa: “multiplicai-vos”. “E se fosse pecado não procriar, até a privação sexual voluntária, autorizada nas Escrituras, estaria em contradição (1Co.7:5). Desse modo, o fator de multiplicação depende da vontade do Senhor para cada família”.

”Os que se opõem a qualquer tipo de limitação de filhos, ou planejamento familiar, argumentam que, se Deus disse 'crescei e multiplicai-vos', não é correto limitar filhos. Mas, conforme podemos depreender da Bíblia, Deus não exige do homem o tamanho de sua família ou prole. O número de filhos nunca foi especificado na Bíblia, como condição especial para o cumprimento da vontade divina. Deus não estabeleceu, de modo rígido, taxativo, o multiplicador” (Elinaldo Renovato de Lima. Ética Cristã: Confrontando as questões morais do nosso tempo. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, pp. 57-58).

Portanto, não há qualquer proibição bíblica a que os pais planejem o número de filhos e busquem estabelecer parâmetros para a formação de sua família dentro de suas possibilidades. Todavia, não deve envolver práticas contrárias à Palavra de Deus como o aborto ou métodos contraceptivos que impliquem em aborto ou morte de embriões. Tais medidas contrariam a dignidade da pessoa humana e a ética cristã e, portanto, não podem jamais ser adotadas por cristãos sinceros, verdadeiros e tementes a Deus.

·         Quantos filhos o casal ter? Deve-se considerar a situação familiar, a idade do casal, as condições de saúde e renda familiar.

·         Quando o casal deve ter filhos? Levando-se em conta a saúde da mãe e da criança, a época mais apropriada para ter filhos é entre 20 a 35 anos. Ultimamente, a idade para se ter filhos está mais elevada. Cuidar da saúde para garantir uma gravidez e parto saudável é uma decisão inteligente. Para obter o segundo filho, primeiramente, é importante recuperar-se da saúde física. É aconselhável dar um espaço de tempo para recuperar-se da saúde e planejar a próxima gravidez.

·         Finanças. Torna-se difícil ter filho em momentos de dificuldades financeiras. Preparar financeiramente para as despesas em prol da criança que vai nascer é uma decisão lógica.

·         Cuidados após o nascimento. Deve-se evitar as relações sexuais, após o nascimento da criança, até realizar o exame de saúde de 1 mês após o parto. Mesmo não menstruando, há possibilidade de engravidar na primeira ovulação. Prevenir-se para não engravidar logo nas primeiras relações sexuais após o nascimento do bebê é um procedimento correto.

2. A questão ética no Planejamento Familiar.  O Planejamento Familiar não consiste em evitar filhos (evitar a gravidez), e sim em planejar ter filhos na época desejada pelos pais. Portanto, postergar o nascimento dos filhos até que se possa cuidar melhor da família, limitar o número dos filhos para que se possa criá-los com dignidade e espaçar o tempo de nascimento entre um e outro filho para melhor acolher mais uma criança, são decisões acertadas, pois as Escrituras ensinam que o homem deve cuidar bem de sua família (1Tm.5:8). Em sendo assim, entendemos que o casal cristão pode, validamente, planejar o número de filhos e tomar medidas que, sem violarem a dignidade da pessoa humana, sejam suficientes para a limitação do número de filhos; inclusive, quando já tiver sido alcançado o número desejado de filhos, utilizar-se de métodos contraceptivos.

No Brasil, o Governo deverá tão somente “promover condições e recursos informativos, educacionais, técnicos e científicos que assegurem o livre exercício do planejamento familiar” (art. 5º da lei 9.263/1996), devendo ser oferecidos “todos os métodos e técnicas de concepção e contraconcepção cientificamente aceitos e que não coloquem em risco a vida e a saúde das pessoas, garantida a liberdade de opção” (art. 9º da lei 9.263/1996). Veja alguns métodos válidos para se evitar a gravidez:

·         Esterilização voluntária. É importante observar que, segundo a lei brasileira, a esterilização voluntária somente é possível entre homens e mulheres com capacidade plena e maiores de vinte e cinco anos de idade ou, pelo menos, com dois filhos vivos, exigindo-se um prazo de sessenta dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico, sendo, também, permitida a esterilização nos casos de risco à saúde ou à vida da mulher ou do futuro concepto, conforme testemunho escrito de dois médicos (art. 10 da lei 9.263/1998). No caso masculino, temos a vasectomia, que apresenta risco incomparavelmente menor para a saúde do homem do que a esterilização feminina.

·         Utilização das pílulas anticoncepcionais ou outras espécies de medicamentos. Este método é utilizado pela mulher, que somente deve fazê-lo mediante acompanhamento médico rigoroso, pois pode causar uma série de efeitos colaterais no organismo da mulher. A mulher cristã, ademais, deverá também ser orientada sobre o tipo de medicamento, negando-se a usar qualquer substância que seja abortiva, a fim de que não pratique o aborto. Biblicamente, nada vemos que proíba o uso desta forma de contraconcepção, desde que tomadas as cautelas necessárias.

·         Abstinência sexual dos cônjuges em certos períodos de tempo. Sem dúvida alguma, faz parte do casamento a regularidade da manutenção das relações sexuais entre marido e mulher, o que os juristas chamam de “débito conjugal”. Paulo, ao tratar do assunto, na epístola aos coríntios, foi incisivo no sentido de que marido e mulher devem manter regularmente relações sexuais entre si (1Co.7:1-4). Contudo, ao contrário do que muitos pensam, esta regularidade há de ser equilibrada, como tudo na vida cristã, não podendo haver um apetite sexual desordenado e uma carnalidade sem limites. Muito pelo contrário, Paulo ensina que o cônjuge não tem domínio sobre o seu próprio corpo, mas sobre o do outro (1Co.7:4; 10:25), mostrando, claramente, que o sexo no casamento deve ser tal que um não busque o seu próprio prazer, a qualquer custo, mas, muito pelo contrário, o prazer do outro. 

(Adaptado do texto “O Cristão e O Planejamento Familiar”. Pr. Caramuru Afonso Francisco. PortalEBD_2002).

CONCLUSÃO

O Planejamento Familiar, com fulcro nos ditames das Escrituras Sagradas, é plausível e necessário para o bem da Família. Ter filho, um após o outro, seguidamente, sem levar em conta suas implicações, pode não ser amor, pode, sim, ser carnalidade desenfreada aliada à ignorância. A Palavra de Deus afirma que “tudo tem seu tempo determinado” (Ec.3:1). Além disso, nos é oportuna a seguinte ordem: “Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts.5:21). Para ter, ou não, filhos, o casal deve, acima de tudo, orar ao Senhor. O cristão que consulta ao Senhor, e aceita a vontade divina na limitação do número de seus filhos, é abençoado em toda a esfera de sua família (Sl.128:1-6).

----------

Luciano de Paula Lourenço
Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
Referências Bibliográficas:
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) - William Macdonald.
Revista Ensinador Cristão – nº 74. CPAD.
Comentário Bíblico Pentecostal. CPAD.
Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.
Hans Ulrich Reifler. A ética dos Dez Mandamentos. Vida Nova.
Pr. Elinaldo Renovato. O cristão e a sexualidade. CPAD.
Pr. Caramuru Afonso Francisco. O Cristão e o Planejamento familiar. PortalEBD_2002.
Pr. Elinaldo Renovato de Lima. O Cristão e o Planejamento familiar.EBD.2002.

domingo, 13 de maio de 2018

Aula 08 – ÉTICA CRISTÃ E SEXUALIDADE


2º Trimestre/2018

Texto Base: 1Co.7:1-16

"Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém aos que se dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará" (Hb.13:4).

 

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos a respeito da Ética Cristã e Sexualidade, um assunto muito pertinente em nossos dias, pois estamos vendo a proliferação de várias ideologias maléficas a respeito da sexualidade. Tudo que Deus criou é bom e isto inclui o sexo, que foi estabelecido por Deus para ser desfrutado no casamento heterossexual antes que o pecado entrasse no mundo (Gn.2:21-25). Aquele que criou o universo, também criou nosso corpo e nossos órgãos sexuais. A vida sexual saudável dentro do casamento tem a bênção de Deus, além de dar alegria e prazer ao ser humano.

I. SEXUALIDADE: CONCEITOS E PERSPECTIVAS BÍBLICAS

A ordenação ética de Deus para a humanidade se encontra nos dois primeiros capítulos do livro do Gênesis, onde encontramos os sete princípios éticos, dentre eles encontramos a sexualidade, que nos fazem “imagem e semelhança de Deus: a dignidade da vida humana, o ponto mais proeminente da criação (Gn.1:26); a sexualidade (Gn.1:27); a procriação (Gn.1:28); o trabalho (Gn.2:15); a submissão a Deus (Gn.2:16,17); o casamento (Gn.2:24) e; a monogamia (Gn.2:24). Ao criar o ser humano, Deus dotou-o de sexualidade plena e diferenciada, macho e fêmea, segundo seus propósitos.

1. Conceito de Sexo e Sexualidade. Quando verificamos a ordenação ética dada por Deus ao homem quando da criação, encontramos o sexo e a sexualidade como sendo um dos princípios inerentes à própria humanidade. Assim, o sexo não é algo mau, porquanto criado por Deus. Entretanto, com o pecado, este princípio divino foi desvirtuado, e é preciso distinguir entre o sexo divinamente estabelecido e as aberrações resultantes do pecado e do mal.

- Sexo. Em matéria de biologia, o sexo se refere a uma condição de tipo orgânica que diferencia o macho da fêmea, o homem da mulher, seja em seres humanos, plantas e animais. Vale ressaltar que o sexo de um organismo é definido pelos gametas que produzem. Gametas são células sexuais que permitem a reprodução sexual dos seres vivos. O sexo masculino produz gametas masculinos conhecidos como “espermatozóides”, enquanto o sexo feminino produz gametas femininos conhecidos como “óvulos”. Da combinação de ambos os gametas resultará a descendência que possuem as características genéticas pertencentes aos pais. Os cromossomos serão transmitidos de uma geração a outra em um processo de combinação de gametas. Cada uma das células terá a metade de cromossomos correspondentes ao pai e outra metade à mãe. As características genéticas estão contidas no DNA (Ácido Desoxirribonucleico) dos cromossomos. Na linguagem corrente, quando se menciona a palavra sexo também pode referir-se a outras questões: ao conjunto dos seres pertencentes ao mesmo sexo, aos próprios órgãos genitais propriamente ditos, por isso é que muitas vezes se usa a palavra como sinônimo de genital; ou a prática de atividades sexuais.

- Sexualidade. A sexualidade humana implica comportamentos e práticas instintivos que estão intimamente associados aos processos biológicos que ocorrem no corpo, ou seja, se manifestam neles. A tendência sexual normal, biblicamente aceitável, é a atração entre o sexo feminino e seu oposto masculino, chamada de relação heterossexual. Nesta condição, a sexualidade está relacionada com a busca da satisfação do apetite sexual, seja pela necessidade do prazer ou da procriação da espécie. Deus criou a sexualidade no homem e na mulher para despertar neles a vontade de unir os seus corpos e satisfazer os seus desejos mais íntimos (1Co.7:32-34).

2. O sexo foi criado por Deus. A Bíblia Sagrada afirma que o sexo foi obra da criação de Deus que, ao criar o homem, fê-lo sexuado. No ato da criação Deus fez o homem e a mulher sexualmente diferentes: "macho e fêmea os criou" (Gn.1:27). Este ponto distingue o homem dos anjos, por exemplo, que foram criados assexuados (Mc.12:25). Quando Deus criou Adão e Eva, logo em seguida proferiu a “bênção” sobre o casal; após isto, ambos “se tornaram uma só carne” (Gn.1:27,28; 2:21-24). O sexo faz parte da perfeita criação de Deus qualificada como sendo “muito bom” (cf. Gn.1:31). Desse modo, o sexo não deve ser visto como algo pecaminoso, sujo ou proibido. Tudo o que Deus fez é bom. O pecado não está no sexo, mas na perversão de seu propósito.

Deus criou o sexo masculino e o sexo feminino, ambos com constituição anatômica e fisiológica diferentes, para formar a família, e a família é a unidade básica da sociedade. Se a família se desintegra, a sociedade decai. Toda união física à parte do matrimônio e todo tipo de lascívia quebram a ordem de Deus e enfraquecem a instituição da família. Sendo criação divina, o sexo não pode ser tratado como algo imoral ou indecente.

3. A sexualidade é criação divina. Deus criou o homem como um ser sexuado - “macho e fêmea os criou” (Gn.1:27). Deste modo, a atração sexual, a atividade sexual não é algo pecaminoso nem estranho ao ser humano, mas, muito pelo contrário, é algo que decorre da própria natureza humana. Sendo assim, não podemos admitir que o sexo seja algo antinatural, ou seja, contrário à natureza do homem, ruim, imoral ou danoso para o ser humano, como alguns têm defendido. Tendo sido criação de Deus, nada mais justo e lógico que o próprio Deus tenha determinado os limites desta atividade humana. A primeira observação que temos com relação ao sexo é que ele deve ser realizado entre homem e mulher. Com efeito, ao criar o homem, Deus os fez macho e fêmea. Assim, a atividade sexual deve ser, sempre, feita entre pessoas de sexos diferentes. O homossexualismo é uma aberração e, salvo os poucos casos em que há distúrbios de saúde física e/ou mental, é uma expressão de rebeldia contra Deus (Rm.1:21-28; Lv.18:22).

II. O PROPÓSITO DO SEXO SEGUNDO AS ESCRITURAS

A atração sexual é algo natural e que revela a própria natureza sexuada do ser humano, devendo, porém, o instinto sexual ser dirigido com equilíbrio para que se faça a vontade de Deus que é a de que o sexo seja efetuado no casamento, com o cônjuge, com finalidades bem delimitadas, a saber: procriação (Gn.1:27,28); satisfação amorosa do casal (1Tm.4:3,4; Ct.1:2,3,15-17) e; ajustamento do casal (Gn.2:24).

1. Procriação. A finalidade primordial do ato sexual refere-se à procriação. A união sexual e a reprodução, pela instituição do casamento, fazem parte da criação e foi ordenada por Deus desde o princípio. Deus abençoou o primeiro casal e disse-lhe: "Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra" (Gn.1:28). Passado o dilúvio, Noé recebeu a mesma ordem recebida por Adão: "E abençoou Deus a Noé e a seus filhos e disse-lhes: frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra" (Gn.9:1). Portanto, a frutificação e multiplicação da espécie foi ordem de Deus (Gn.1:28), o que se dá somente pela atividade sexual entre um homem e uma mulher. Aqueles que dizem que o relacionamento sexual foi o pecado de Adão e Eva desconhecem totalmente as Escrituras Sagradas. A ordem de procriação concedida ao homem era ponto definido; jamais o Senhor ousaria ordenar-lhe uma coisa e depois castigá-lo por obedecer a essa ordem. Nunca devemos confundir o fruto do conhecimento do bem e do mal com o ato conjugal, permitido e ordenado pelo Senhor. Portanto, sexo não é pecado, mas os princípios divinos da sexualidade encontram-se deturpados. O pecado está na depravação sexual que contraria os princípios estabelecidos nas Escrituras Sagradas.

2. Satisfação amorosa do casal. A Bíblia se refere ao sexo como algo prazeroso e satisfatório entre o marido e a sua esposa: "Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade..." (Pv.5:18,19); e ainda: "Goza a vida com a mulher que amas"(Ec.9:9). Mas, a busca do prazer e da satisfação não deve ser egoísta, transformando-se o parceiro sexual (que será, necessariamente, o cônjuge), em um mero objeto, mas, bem ao contrário, a Palavra de Deus estabelece que se busque sempre a satisfação do outro (1Co.7:3-5). É neste equilíbrio e altruísmo que o sexo de acordo com a Palavra de Deus se distingue das aberrações e das práticas mundanas que têm substituído, entre os ímpios, o princípio divino da sexualidade. A bestialidade sexual está sempre relacionada com o egoísmo e o total aviltamento do parceiro sexual (Gn.19:4-11; Jz.19:22-30; 2Sm.13:11-17).

Portanto, o ato conjugal deve ser um prazer, e nunca um tormento ou sofrimento. Os dois, marido e mulher, devem sentir-se satisfeitos e alegres de se completarem neste ato. Na satisfação sexual o casal sempre renova a união, recriando o vínculo matrimonial. Assim, na união conjugal, como também ensina o Novo Testamento, o homem e a sua mulher devem buscar a satisfação sexual (1Co.7:5). Caso esta satisfação sexual e prazer conjugal não seja constante, a tendência é que o casamento se acabe. Nisto percebemos que os casais precisam sempre se recrear, dando continuidade à união que um dia foi iniciada.

Segundo os cientistas entendidos no assunto, no ato sexual e na atividade que precede o ato, é liberado um hormônio chamado “ocitocina”, ou “hormônio do amor”. Quando esse hormônio é liberado, produz sentimentos de empatia, confiança e profunda afeição. Cada vez que você faz sexo, seu corpo sofre uma reação química que lhe diz para “apegar-se”. Deus criou os meios para satisfazer nosso desejo por intimidade em um nível biológico.

3. Ajustamento do casal. O sexo é uma maneira pela qual se dá o ajustamento do casal, pois é uma das principais expressões do amor conjugal. Com efeito, é através do sexo que um cônjuge se entrega ao outro, que um cônjuge procura agradar ao outro. É uma das expressões pelas quais se traduz a união do casal - “e serão ambos uma carne” (Gn.2:24). O amor conjugal não se confunde com o sexo, como propala erroneamente o mundo imerso no pecado, mas tem uma de suas expressões no sexo. O sexo praticado no modelo bíblico revela o verdadeiro amor, pois não é egoísta, tanto que diz a Palavra que o corpo do cônjuge está sob o domínio do outro (1Co.7:4). A fase de ajustamento do casal é tão importante que a lei de Moisés dispensava, durante um ano, o homem casado dos seus deveres cívicos, inclusive o de ir à guerra (Dt.24:5).

III. O CASAMENTO COMO LIMITE ÉTICO PARA O SEXO

Ao contrário do que tem defendido o mundo imerso no pecado, a atividade sexual não é algo que deva ser desenvolvido sem qualquer critério ou a qualquer momento. Somente no casamento monogâmico e heterossexual (1Co.7:9) se pode praticar sexo, sendo totalmente contrária à Palavra de Deus qualquer outra conduta que não seja esta. Portanto, toda prática sexual realizada fora destes moldes constitui-se em sexo ilícito.

1. Prevenção contra a fornicação. Na ética cristã, a fornicação é geralmente entendida como a atividade heterossexual entre pessoas solteiras ou entre casal e solteiro. A fornicação é errada porque concentra-se no prazer e não na convivência legal; é instantânea e inconstante, não tem compromissos e não assume responsabilidades familiares.

Ao contrário do que determina a Bíblia Sagrada, o mundo tem defendido e até incentivado que as pessoas, numa idade cada vez menor, venham a manter relações sexuais, deixando a virgindade, algo considerado ultrapassado e até ridicularizado pela mídia e, por extensão, na sociedade por ela influenciada. Entretanto, a Bíblia condena a fornicação do início ao final. A Palavra é bem clara ao afirmar que os fornicários não herdarão o reino de Deus (At.15:29; Ef.5:5; 1Tm.1:10; Hb.12:16; Ap.21:8). Para prevenir este pecado, o apóstolo Paulo orienta os cristãos a se casarem: "por causa da prostituição [ou fornicação], cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido" (1Co.7:2). Os ensinos de Paulo ratificam o propósito divino do casamento, ou seja, "um homem para cada mulher" (Gn.2:24). Este princípio também foi defendido por Jesus: "deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher" (Mt.19:5). Portanto, o sexo foi estabelecido por Deus, mas tem momento certo para ser exercido: o casamento, que é o legítimo limite ético dos impulsos sexuais que podem ser satisfeitos sem que se incorra em atos pecaminosos. É com tristeza, aliás, que vemos, cada vez mais, uma tolerância de muitos na igreja com relação a este princípio bíblico, permitindo-se o sexo antes do casamento entre “pessoas já comprometidas”, como se isto fosse possível. As bases do casamento são lançadas no namoro e alicerçadas no noivado. Se essas bases forem lançadas sobre a desobediência a Deus, na prática da fornicação, estão correndo sério risco de não terem a bênção de Deus. Ter a bênção de Deus no casamento é muito mais importante. Pense nisso!

2. O casamento e o leito sem mácula. O apóstolo Paulo ensinou os crentes de Tessalônica que, para ser um autêntico cristão, não basta apenas mudar de religião, mas que haja uma mudança na maneira de viver, ou de andar. Conquanto a prostituição, em todas suas modalidades, fosse uma prática comum no mundo em que eles viviam, os crentes tinham que “se abster” dessa prática mundana (1Ts.4:3), pois Deus “...não nos chamou para a imundícia, mas para a Santificação” (1Ts.4:7). A prática da imundícia referente ao sexo, não está apenas lá fora, no mundo ímpio, mas pode estar no próprio leito conjugal. Por isto, o relacionamento sexual entre os casais cristãos não pode ser nos mesmos moldes praticados pelos gentios - “não na paixão de concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus” (1Ts.4:5). Talvez, neste mesmo sentido, escreveria depois o autor da Epístola aos Hebreus, dizendo: “Venerado seja entre todos o matrimonio e o leito sem mácula; porém aos que se dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará” (Hb.13:4). A expressão “venerado seja” nesse texto, denota elevado grau de respeito e consideração para com o matrimônio. O nosso leito conjugal é um lugar santo aos olhos de Deus. Sendo o sexo uma dádiva de Deus, deve ser visto e praticado levando-se em conta a sua origem celestial. Qualquer deturpação sexual é contra a vontade do Criador (Rm.1:24-28)

Muitos desprezam o casamento para viverem uma vida desregrada, dissoluta e descompromissada. A vida cristã exige compromisso sério não apenas com Deus e a igreja, mas também com a sociedade e a família, e esta última começa com o nosso cônjuge. Quaisquer comprometimentos sexuais ilícitos — a prostituição, o adultério — são duramente condenados por Deus, e quem pratica tais coisas receberá dEle o justo juízo. Deus quer que seus filhos tenham vida sexual ilibada, não apenas por causa do testemunho, mas também por sermos o templo do seu Espírito.

3. O correto uso do corpo. Em Pv.5:18,19, a Bíblia nos mostra que o prazer é algo próprio do sexo e que não é pecado a busca de satisfação entre homem e mulher. O que se condena é uso incorreto do corpo, o abuso, o domínio do homem pelo instinto sexual de forma egoística e descontrolada, o que não se permite nem mesmo entre casados, pois isto revelará um desequilíbrio, sendo certo que a temperança, o domínio próprio, é uma das qualidades do fruto do Espírito Santo (Gl.5:22), enquanto que a lascívia e a impureza são obras da carne (Gl.5:19). Diante deste equilíbrio que deve haver na atividade sexual, medidas como a prática de relações sexuais antinaturais (como o sexo anal, o sexo grupal, a homossexualidade, o sexo com animais, por exemplo), mesmo feitas entre casados e com mútuo consentimento do casal, são abomináveis perante Deus, pois revelam carnalidade e descontrole do instinto sexual. Também se insere neste contexto a inconveniência de um casal cristão frequentar locais destinados à prática da prostituição e da licenciosidade como hotéis de alta rotatividade, praias de nudismo, “resorts de hedonismo” ou coisas similares a estas. Embora o sexo entre casados não seja proibido, mas até um dever dos cônjuges, naturalmente os ambientes mencionados são repletos de pecado e destinados ao pecado, não podendo, pois, uma atividade sexual santa se desenvolver em meio a tais cenários. Atente para o que diz o Espírito Santo:

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o Reino de Deus? Não erreis: nem os devassos... nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas [...] herdarão o Reino de Deus. E é o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (1Co.6:9-11).

CONCLUSÃO

Quando Deus estava criando todas as coisas, em Gênesis 1:10,12,18,21,24, verificamos esta declaração: “E viu Deus que era bom”. Porém, ao criar o homem à sua imagem e semelhança, Ele viu que era muito bom. Isto significa que tudo quanto Deus fez no homem é muito bom. Então, o sexo e a intimidade dentro dos princípios sagrados são muito bons, porque foram instituídos por Deus, para a sua glória. Portanto, vivamos para a glória de Deus!

-------------

Luciano de Paula Lourenço
Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
Referências Bibliográficas:
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) - William Macdonald.
Revista Ensinador Cristão – nº 74. CPAD.
Comentário Bíblico Pentecostal. CPAD.
Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.
Hans Ulrich Reifler. A ética dos Dez Mandamentos. Vida Nova.
Dr. Caramuru Afonso Francisco. O cristão e a sexualidade. PortalEBD_2002.
Pr. Elinaldo Renovato. O cristão e a sexualidade. CPAD.

domingo, 6 de maio de 2018

Aula 07 - ÉTICA CRISTÃ E DOAÇÃO DE ÓRGÃOS


2º Trimestre/2018

Texto Base: 1Coríntios 15:35-45

 
“Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1João 3:16).

 

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos a respeito da Ética Cristã e Doação de Órgãos. O ato de doar órgãos para transplante é uma expressão concreta de amor cristão (1João 3:16); é a boa obra que expressa o amor que sentimos pelo outro. O nosso amor a Deus está proporcionalmente ligado ao nosso amor ao próximo. Quem ama, doa. O problema na doação de órgão é a falta de confiança em algumas instituições que gerenciam banco de órgãos. A imprensa já chegou a noticiar casos em que sangue e outros órgãos foram objeto de venda, causando desconfiança entre muitas pessoas. Também, existem muitas famílias que rejeitam a doação por dilemas éticos e por falta de informação. Apesar disso, o cristão não deve esmaecer neste bom intento. A doação de órgãos é uma atitude meritória e que deve ser tomada por quem vive a fazer o bem neste mundo, como são os servos de Jesus Cristo, já que sabemos que o nosso corpo, após a morte, para nada mais servirá senão para tornar ao pó, uma vez que o corpo que receberemos quando do arrebatamento da Igreja será um corpo glorificado. Por que, então, mesmo após a nossa morte, não fazermos o bem a quem precisa de nossos órgãos para continuar sobrevivendo?

I. DOAÇÃO DE ÓRGÃOS: CONCEITO GERAL

Doção de Órgãos é a concordância expressa, ou presumida, por parte de uma pessoa, consentindo que seus órgãos sejam retirados após sua morte para serem aproveitados por pessoas portadoras de doenças crônicas, visando aumentar-lhes sua sobrevida. Doar órgãos do corpo humano é uma dádiva, é a permissão de colheita de tecidos ou órgãos do seu próprio corpo, para fins de diagnóstico ou para fins terapêuticos e de transplantação. Em suma, podemos definir Doação de Órgãos como a liberação por parte do indivíduo, que após sua morte “constatada pela medicina”, seus órgãos sejam retirados e postos em pessoas que precisem, dando mais vida temporal. É válido ressaltar que a transfusão de sangue, a dádiva de óvulos e de esperma, e a transferência e manipulação de embriões, são objeto de legislação especial, bem como a colheita de órgãos para fins de investigação científica.

Doação de órgãos de recém-nascido anencéfalo. A retirada de órgãos do ser humano nesta situação não está ultrapassando os limites tolerados pela ética e pela lei? Não podemos esquecer que a norma alusiva à utilização de órgãos e tecidos humanos para transplantes faz referência à morte encefálica, traduzida pelos critérios adotados pelo Conselho Federal de Medicina. Alguns médicos, porém, dizem que a retirada de órgãos de um recém-nascido anencéfalo é uma questão que já está contemplada na nossa legislação.

Ato que não deve comprometer a vida do doador. Existem transplantes que são considerados comuns, estes geralmente expressam a viabilidade da vida e o amor que se tem pelo ente querido ou até mesmo por um estranho, denotando amor ao próximo; são aqueles transplantes que são marcados pela retirada de uma parte do corpo para que outro o receba de forma que lhe assegure a vida; o importante aqui é que o doador continua vivo, e do ponto de vista até dos que são contrários a doação de órgãos, neste aspecto, é perfeitamente aceitável. Portanto, quando se fala de doação de órgãos do corpo, está-se falando em um ato que não compromete a vida do doador, ou seja, ou ele já está morto ou, então, trata-se de órgão duplo ou regenerável. Jamais se pode conceber uma doação de órgãos que venha a causar a morte de alguém, pois, como vimos na lição sobre a eutanásia e o suicídio, só Deus é o dono da vida (1Sm.2:6), não podendo o homem dela dispor, ainda que sob o argumento de permitir a sobrevida ao próximo.

Doar órgãos é fazer o bem sem olhar a quem. Quem faz o bem, colhe o bem; é a lei universal da semeadura. Não resta dúvida de que doar órgãos do corpo humano é fazer bem ao seu próximo. Se alguém precisa de um órgão para sobreviver e nós podemos fornecê-lo, enquanto servos de Deus nós devemos fazê-lo, pois a Bíblia é bem clara ao afirmar que devemos fazer o bem que está a nosso alcance e, se não o fizermos, estaremos pecando (Tg.4:17; 1João 3:17,18).

Assim, o ato de Doação de Órgãos se apresenta como uma manifestação do amor de Deus na vida do cristão, um amor altruísta, ou seja, um amor que não pensa em si mesmo, mas que leva em consideração o outro, o próximo, a quem devemos amar como a nós mesmos (Lv.19:18; Mt.22:39). Portanto, todo cristão deve doar seus órgãos “post mortem” ou, se lhe for solicitado, contribuir para a saúde de outrem doando um órgão duplo ou regenerável (como o sangue ou o leite, por exemplo).

II. QUESTIONAMENTOS PERTINENTES

1. Há na Bíblia alguma proibição de doação de órgãos? Não, não há. É verdade que sempre há aqueles que gostam de encontrar nas entrelinhas da Bíblia profecias e previsões sobre situações futuras; são os desnutridos intelectualmente, ou que possuem um subdesenvolvimento intelectual, que acham de forma explicita que até a doação de sangue é pecado, pois segundo eles o sangue é a vida, logo não se pode doar; mas, se o sangue é a vida, Jesus deu a própria vida por nós; portanto, não há motivos para que não sigamos o Seu exemplo, uma vez que ele mesmo mandou-nos ser seus imitadores. Portanto, não há na Bíblia nada, pelo menos especificamente, nem a favor nem contra a doação de órgãos humanos.

2. Deve ser obrigatória a doação de órgãos?  Não. O próprio Deus não invade o livre-arbítrio do homem, não podendo, pois, qualquer governo querer fazê-lo. É preciso que o Governo conscientize seus cidadãos da importância da doação de órgãos, do significado deste gesto, mas não prive o indivíduo do direito de dar o destino que quiser a seu corpo. A igreja, também, não deve forçar pessoa alguma a fazer doação de órgãos, mas deve ensinar que este gesto é uma revelação do verdadeiro amor cristão e que, quem o fizer de coração, certamente será abençoado e é um poderoso instrumento de Deus para a vida de outra pessoa. Não é por força nem por violência, mas pelo Espírito de Deus (Zc.4:6). O ato de doação de órgãos, para ter validade perante Deus, há de ser voluntário, pois Deus ama a quem o faz com alegria, de coração, e não por necessidade ou imposição (2Co.9:7; Mc.12:43,44; Lc.7:44-50).

3. Há algum benefício espiritual aos doadores de órgãos? Não, não há nenhum benefício espiritual, nem nesta vida nem no porvir. Existem alguns conceitos errôneos de que, na doação de órgãos, a pessoa alcançará sobrevida no corpo de um terceiro, algo disseminado pela milenar e antibíblica crença na transmigração das almas; ou que este gesto representa um ato de caridade ou uma boa obra que representará evolução espiritual (entendimento dos espíritas kardecistas); ou purgação de pecados (entendimento de católicos romanos). Quem doa órgãos com esta motivação está sendo interesseiro, egoísta, podendo ser comparado a Judas Iscariotes no episódio da mulher que ungiu o corpo de Jesus (João 12:3-6), uma filantropia que visa o próprio interesse. Estes já têm aqui o seu galardão e, como o fariseu da parábola de Jesus (Lc.18:9-14), nenhuma justificação obterão, até porque as obras não salvam pessoa alguma (Gl.2:16).

4. Doação de órgãos é uma demonstração de falta de fé em Deus na cura de enfermidades? Claro que não. Deus opera, também, pela ciência e se há possibilidade de nós cedermos um órgão para a cura da enfermidade de alguém, estaremos mostrando o amor de Deus que está em nossos corações e contribuindo para a sobrevida. O desenvolvimento da ciência é resultado do amor de Deus para com o homem e podermos servir de instrumento para a cura de alguém, ainda que pelas mãos dos médicos, é uma grande bênção. Jamais a Bíblia Sagrada condenou a prática da medicina ou a utilização de seus recursos. Tanto assim é que até o apóstolo Paulo, cujos lenços e aventais tinham até virtude (At.19:11,12), não deixou de receitar um remédio a seu filho na fé, Timóteo (1Tm.5:23). Uma atitude desta natureza, ademais, é querer impor a Deus o modo pelo qual Ele deve operar, o que é inadmissível, pois Deus é o Senhor e nós somos apenas Seus servos.

5. Doar sangue é pecado segundo a Bíblia? A doação de sangue é um ato de amor ao próximo, portanto, um ato que se harmoniza com a ética bíblica. A Bíblia nos manda amar ao próximo com amor sacrificial (cf. João 15:13). Ora, se oferecer a vida em favor dos que precisam é incentivado, uma simples doação de sangue, que é capaz de aliviar a dor dos que sofrem enfermidades graves, é um gesto ínfimo, porém sobremodo significante. Aliás, o primeiro grande doador de sangue foi Jesus Cristo, que derramou todo seu sangue na cruz para nos salvar (Lc.22:20).

Argumentos contrários à doação de órgãos sempre estão relacionados a noções errôneas sobre o ser humano ou sobre a Palavra de Deus. Os argumentos contrários à transfusão de sangue, desenvolvidos notadamente por algumas seitas, são fruto de uma errônea concepção do sangue como sendo a “alma” das pessoas, o que, na verdade, não corresponde ao ensinamento bíblico a respeito. Sendo assim, dizer que a transfusão de sangue é pecado e que doar sangue é pecado é forçar os textos bíblicos a dizer o que não dizem, é colocar na boca dos autores bíblicos conceitos que eles não ensinaram, pois doação e transfusão de sangue são coisas relativamente modernas e não existiam nas épocas bíblicas. E também tentar ligar a ingestão de sangue na forma de alimentos com a transfusão, não tem qualquer sentido dentro do contexto bíblico devido as singularidades de cada uma delas.

6. Doar órgãos compromete a ressurreição do crente? Em absoluto. Há quem não permite a doação de órgãos porque entende que a ressurreição ficaria comprometida. Afinal, “como entrarão na Jerusalém Celeste sem o coração, ou sem os pulmões, ou desprovidos de rins?”. As pessoas que pensam assim, frutos de conceitos errados e sem respaldo bíblico, esquecem de que a ressurreição, no momento do arrebatamento, se fará em corpo glorioso, pois a carne e o sangue não herdarão o reino de Deus (1Co.15:44,50,52-54).

“Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual. E, agora, digo isto, irmãos: que carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então, cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória”.

Há pessoas mutiladas, sem pernas e sem braços, sem olhos, mas que, ao ressuscitarem, terão corpo espiritual perfeito.

Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (Fp.3:20, 21).

Na eternidade, todos seremos perfeitos, como perfeitos são os santos anjos. O corpo será “corpo glorioso” e “corpo espiritual” (1Co.15:42,43), que não precisará de órgãos físicos.

“Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção, ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor”.

Também, a ressurreição para o juízo do trono branco será uma restauração milagrosa, não ficando Deus adstrito a peculiaridades como a decomposição dos organismos (Ap.20:12,13). Para Deus, no dia da ressurreição, não haverá nenhum problema, estejam onde estiverem as partes de um determinado corpo.

“E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante do trono, e abriram-se os livros. E abriu-se outro livro, que é o da vida, e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras”.

7. Existe o risco da comercialização? Sim. Mas não é por causa disto que deixaremos de fazer o bem. Um grande entrave para a doação de órgãos é o receio de que os mesmos sejam objeto de comercialização, o famoso “tráfico de órgãos”, negócio escuso que tem crescido enormemente no mundo e que está, inclusive, relacionado com o aborto, com a adoção ilegal e com o tráfico de crianças em todo o mundo. Se alguém utilizar indevidamente os órgãos doados, ele prestará contas diante de Deus (quiçá diante dos homens) pela sua conduta; todavia, teremos feitos a nossa parte. A responsabilidade pelos atos é individual. Nunca devemos deixar de aproveitar uma oportunidade para fazer o bem, pois foi assim que Jesus procedeu em Seu ministério terreno – “...o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (At.10:38). 

III. DOAR ÓRGÃOS É UM ATO DE AMOR

Doar órgãos e tecidos humanos é um ato de amor, de empatia e de solidariedade. O verdadeiro cristão precisa atentar para a sua consciência, que deve estar sempre alinhada aos parâmetros bíblicos para que possa atuar segundo a reta justiça.

1. O princípio da empatia e da solidariedade. A Doação de Órgãos é um gesto altruísta e revelador do verdadeiro amor que Cristo coloca em nossos corações; é um gesto de empatia e de solidariedade com o próximo; é uma expressão do verdadeiro amor cristão e uma atitude em defesa da vida, que deve ser, sempre, incentivada e estimulada por atitudes práticas pela igreja. A doação deve ser altruísta e voluntária, ou seja, deve ser feita sem qualquer interesse que não seja o bem-estar do próximo, bem como deve partir do interior do coração; deve ser algo voluntário e decidido, sem o que não terá valor algum do ponto-de-vista espiritual.

O corpo pertence a Deus (1Co.6:20), mas ele nos foi dado para ser por nós administrado com responsabilidade, e doar um órgão para ajudar alguém a continuar vivendo, quando nós não temos mais condições de vida, pode significar apenas um empréstimo, pois na ressurreição, se for o caso, o órgão voltará para o seu devido lugar, pela infinita sabedoria de Deus.

É de bom alvitre que a doação de órgãos seja acompanhada pela família do cristão, a fim de impedir que este gesto altruísta seja desvirtuado por interesses comerciais ou escusos, lembrando que a lei brasileira reconhece este direito aos familiares. Entendemos, inclusive, que, se houver fortes indícios de que os órgãos serão retirados por pessoas escusas e sem qualquer credibilidade, que a família do doador exerça o direito de recusa de retirada dos órgãos do ente querido falecido. A Bíblia diz que tudo deve ser feito por fé e sem problema de consciência, não devendo consentir com os que praticam o pecado.

2. O princípio do verdadeiro amor. Salvar a vida de alguém é uma demonstração de elevado sentido espiritual e moral. Cristo ensinou que não existe maior amor do que doar a sua vida em benefício do próximo (João 15:13). Nosso Senhor Jesus Cristo não apenas doou algum órgão por nós, mas deu toda sua vida em nosso lugar, na cruz do Calvário. Ele se doou, de corpo e alma, para que não morrêssemos. O apóstolo João nos exorta: “Conhecemos a caridade nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo seu irmão necessitado, lhe cerrar o seu coração, como estará nele a caridade de Deus? ” (1João 3:16,17). Nesse texto, vemos o apóstolo do amor ensinar que devemos “dar a vida pelos irmãos”, e que os proprietários de “bens” no mundo que fecham o coração para o irmão necessitado não têm o amor de Deus. Podemos entender que um órgão a ser doado é um “bem” do mais alto valor para a salvação da vida orgânica de um doente. Então, “não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não houvermos desfalecido” (Gl.6:9).

CONCLUSÃO

Diante do que foi exposto esperamos que o elevado gesto de doar órgãos tenha o seu real alcance nos corações das pessoas, principalmente dos cristãos, a ponto de não recuar em momentos oportunos, cônscios de que esta ação, conforme vimos, em nada contraria os preceitos éticos ou bíblicos. Lembre-se que a doação de órgãos é um ato de consciência e amor ao próximo, e que este ato pode salvar vidas. É bom ressaltar, porém, que o ideal é manifestar a vontade de doar e informá-la à família. Não adianta deixar o desejo expresso por escrito nem um registro, mesmo gravado em vídeo ou declarado em uma rede social, por exemplo. A decisão final é dos familiares; são eles que definirão quais órgãos e tecidos serão doados. Por isso, é fundamental que os doadores deixem seu desejo claro para os parentes.

---------

Luciano de Paula Lourenço
Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
Referências Bibliográficas:
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) - William Macdonald.
Revista Ensinador Cristão – nº 74. CPAD.
Comentário Bíblico Pentecostal. CPAD.
Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.
Hans Ulrich Reifler. A ética dos Dez Mandamentos. Vida Nova.
Dr. Caramuru Afonso Francisco. O cristão e a doação de órgãos do corpo. PORTALEBD_2002.
Pr. Elinaldo Renovato. O cristão e a doação de órgãos. EBD_2002.